quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Rotina de um fissurado

Teoricamente acabaram os programas desse ano. Só, na teoria, claro, porque em novembro estaremos em Santarém, no Pará. Mas para quem conhece o movimento, a alegria, a vida que uma semana de cirurgias da Operação Sorriso carrega, parece uma eternidade até novembro!

Enquanto isso, voltamos à rotina. A rotina normal da grande maioria das pessoas: trabalho, família, amigos, eventos, algum lazer. Falei com alguns voluntários nessas duas semanas que se seguiram ao programa de Fortaleza, todos tentando se readaptar à rotina. É incrível o vazio que sentimos depois de uma semana de Programa.

É como se tivessem tirado de dentro de nós algo fundamental, muito nosso. Como se você fosse à praia, por exemplo, e tivessem tirado o mar do lugar onde sempre esteve. Ou como se, noite após noite, olhasse para o céu procurando a lua e no meio de tantas estrelas brilhantes, ela não aparecesse mais. Tudo bem, o mar está lá, a lua vai aparecer e vamos todos nos readaptando à rotina, tentando colocar a vida em ordem ...

Fico imaginando agora aquelas pequenas crianças tentando se readaptar também a suas rotinas. As semanas de pós operatório, os vizinhos e familiares que vêm ver como ficou a cirurgia, a volta às aulas, o reaprendizado da fala, da deglutição, da autoestima. Algumas famílias ficaram tão envolvidas que acabaram caçando a gente no orkut, facebook e modernidades e sempre nos relatam cada conquista: olha minha filha como está linda! ele agora está muito mais livre, feliz! obrigada pelo que vocês fizeram! Quero ser voluntário no próximo ano! Coisas do tipo.

Felizmente essa é a parte boa, de quem pôde ser operado, de quem pôde ajudar de alguma forma. Mas e quem não pôde? Como será a rotina daquelas famílias que ainda acordam e ficam esperando o telefonema do hospital? Dos que levam os filhos à rua e sabem que serão o centro dos olhares e atenções? Como será a rotina de um fissurado?

Até novembro, no Pará, vamos recuperando fôlego, compartilhando histórias, lembranças, casos, apresentando heróis. Vale lembrar que nesse meio tempo, milhares de heróis anônimos lutam contra fatos e rotinas em outros locais, hospitais, institutos, ongs. Por sorte não estamos sozinhos no mundo. Por sorte há quem possa fazer um pouco todos os dias. Por sorte podemos juntar forças e nos unir.

Ainda temos muito a fazer.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Programa de Fortaleza

Cheguei de Fortaleza ontem e, como previsto, o Programa foi um sucesso!

Triamos 176 pacientes, todos com avaliação médica, fonoaudiológica, odontológica etc. Desses, 110 pequeninos receberam a chance de sorrir naturalmente como todos nós. O que poderíamos querer mais após uma semana de trabalho exaustivo das 5h30 às 23 horas? E melhor?

Fortaleza, linda cidade brasileira, de gente amiga e coração aberto. Recebeu o time de voluntários proveniente de 9 países: Brasil, Estados Unidos, África do Sul, Honduras, Paraguai, Bolívia, Rússia, México, Equador.

Antes de postar relatórios e resultados formais aqui para vocês, compartilho o vídeo feito com muito carinho (e trabalho!) pelo voluntário, publicitário e fotógrafo Marcelo Rolim.

:) Obrigada! Parabéns a todos!

Elisa, sorrindo à toa...


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domingo, 30 de agosto de 2009

Vídeo do Programa do Rio e partida para Fortaleza

Amanhã partimos para Fortaleza. Assim, enquanto não chegam as novidades de lá, deixo com vocês o vídeo de agradecimento do Programa do Rio. Não canso de repetir: obrigada, Rio de Janeiro!

:) Orgulho de ser brasileira.


Vídeo produzido voluntariamente por Luciana Garcia


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sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Operação Sorriso no programa Mais Você - Ana Maria Braga



Participamos hoje do programa da apresentadora Ana Maria Braga, na TV Globo, o MAIS VOCÊ.

Para quem não viu, ASSISTA AQUI.


:) Elisa

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Histórias 03: Ônibus da sorte

Entrevista, texto e foto do amigo e também voluntário
Frederico J. Junqueira | fredjunqueira@me.com
Dona Maria das Dores Antonio acordou na manhã do ultimo dia 13 de agosto disposta a tentar sua sorte. Sua filha de 5 meses, Ana Clara, havia nascido com uma fissura labial, o lábio leporino, e Dona Maria das Dores tentava, desde o nascimento, conseguir que sua querida filha recebesse a cirurgia reparadora, mas sem sucesso. Na noite anterior, voltando com ela para sua casa em Niterói a bordo de um ônibus que cruzava a ponte Rio-Niterói, Dona Maria começou a ser indagada por outros passageiros sobre sua filha e porque ela não a havia levado ao “tal mutirão que está acontecendo no Hospital do Fundão”, ao que ela respondia que havia perdido a oportunidade, pois as inscrições tinham sido só na semana anterior. Ao chegar em casa, o mesmo discurso, dessa vez feito por suas ‘comadres’: “leve ela lá, que mal tem?”, perguntaram.

Na manhã do dia 13, ao chegar ao Hospital do Fundão, Dona Maria foi encaminhada para o 12o andar, o centro cirúrgico, para que os voluntários da Operação Sorriso pudessem orienta-la sobre os caminhos que poderia tomar no futuro, para tentar conseguir a cirurgia para sua filha. Pelo menos era o que ela pensava. Então imaginem o susto desta mãe de Niterói, angustiada havia 5 meses pela luta diária na tentativa de mudar a vida de sua filha, quando depois de 5 minutos de conversa com um voluntário da Operação Sorriso e uma avaliação no mesmo momento feita por um cirurgião plástico, um pediatra e um anestesista, ela foi informada de que sua filha receberia a cirurgia reparadora:

- “Ah, é? Esse mês ainda?” – indagou Dona Maria das Dores.

- “Não”, respondi, “daqui a 35 minutos. É só o tempo de abrirmos o prontuário dela e fazermos os exames”

O olhar que recebi, assim como as lágrimas de Dona Maria ficarão para sempre guardados como uma memória deste programa!


Voluntária Luana Garcia e Maria das Dores Antonio, mãe da paciente Ana Clara

Mas Dona Maria não seria a única história comovente destes dias corridos, muito pelo contrario. Naquele mesmo dia, naquele mesmo instante em que eu conversava com ela, Douglas Daniel do Nascimento, um rapaz saudável de 13 anos, morador da Vila Kennedy, estava recebendo sua cirurgia de palato. A voz extremamente anasalada, resultante de seu palato aberto, havia feito com que Douglas abandonasse a escola anos antes e por isso ele não sabia ler ou escrever. As constantes brigas com colegas de classe fizeram com que sua mãe, Márcia Lima Macedo, não estranhasse a decisão. Mas Dona Márcia não estava do lado de fora do centro cirúrgico naquele instante, esperando o fim da cirurgia e tentando vencer a ansiedade de não saber o que estava acontecendo com seu filho, como as outras mães e pais. Não, Dona Márcia estava na enfermaria, cuidando de seu outro filho, Victor Hugo, de 6 anos, que havia saído da mesma cirurgia momentos antes e se recuperava dormindo. Aquela sensação de ansiedade Dona Márcia já conhecia bem.


Dona Márcia Lima Macedo e dois de seus filhos, recém operados

Na 2a feira, primeiro dia das cirurgias do programa, eu havia a visto aos prantos de emoção quando sua filha, Michelle, a primeira dos seus três filhos que foram operados naquela semana, saiu da cirurgia. Mãe de 6 filhos, 3 deles fissurados, Dona Márcia passou, em suas palavras, a maior parte dos últimos 13 anos dentro de casa, com seus filhos. Em apenas uma semana, sua vida havia mudado por completo, assim como a dos seus três filhos mais novos. Até o mês anterior e apesar de morar dentro da cidade, Dona Márcia, incrivelmente, não sabia que existia uma possibilidade de cura para seus filhos, mas um intervalo de novela na Globo na semana anterior, onde o comercial da Operação Sorriso foi passado, faria mudar para sempre o futuro de sua família. O primeiro objetivo apos retornarem para casa? “mandar eles pro colégio, depois sair mais de casa, aproveitar a vida, né?”.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Histórias 02: Ficar bonito após 59 anos

Entrevista, texto e foto do amigo e também voluntário
Frederico J. Junqueira | fredjunqueira@me.com
Aproveitar mais a vida é que o Senhor João Ferreira da Silva, morador de Duque de Caxias tinha em mente na última sexta-feira. Seu João tem 59 anos e até então, havia passado toda sua vida com uma fissura labial. Motivo? Quando veio do Rio Grande do Norte para o Rio há décadas, ele já possuía dois filhos, que seriam seguidos de mais 3 e, durante toda sua vida, sempre teve medo de perder mais de dois dias de trabalho pela cirurgia, o que poderia fazer com que seu patrão o despedisse.

Agora, com seus 5 filhos criados, Seu João e sua mulher, casados há 40 anos, haviam decidido que já era hora dele aproveitar mais a vida e o primeiro passo, segundo ele, era: “resolver esse problema que me acompanha há 59 anos e ficar bonito. Perguntei ao simpático Seu João o que ele achava que aconteceria agora que ele havia sido operado? ah, meu filho, sem dúvida que minha mulher vai se apaixonar de novo por mim e vamos aproveitar!”.


João Ferreira da Silva antes e imediatamente depois da cirurgia

Se apaixonar é algo que Cristiane da Cruz, de 36 anos, quer muito fazer, especialmente por si própria. Operada de uma fissura labial no mesmo dia que o Seu João, Cristiane pediu um espelho para se olhar assim que chegou à sala de recuperação, ainda dentro do centro cirúrgico. Ao se olhar, suas únicas palavras foram: “agora sim posso me olhar no espelho”. Cristiane teve que esperar 36 anos por esse momento!

Tão forte é a vontade de mudar dos pacientes fissurados, que o Leonardo, um simpático e falante jovem de 20 anos, morador de Mesquita, no Rio de Janeiro, ao ser informado pelo cirurgião que o operaria que, talvez, dado sua fissura labial, fosse necessário retirar um pequeno pedaço de sua orelha para reparar o tecido, ele respondeu: “Doutor, se for pro Senhor me deixar com o nariz e a boca novos, o senhor pode tirar minha orelha inteira se quiser!”.

sábado, 22 de agosto de 2009

Histórias 01: Deixando uma vida de exclusão em 19 minutos

Entrevista, texto e foto do amigo e também voluntário
Frederico J. Junqueira | fredjunqueira@me.com

Camila Vitória Alves, de 4 meses, após receber a cirurgia

Contarei algumas das histórias que cruzaram meu caminho nos últimos 10 dias. Assim como eu, outros dos mais de 100 voluntários envolvidos no programa cirúrgico do Rio 2009 devem ter histórias que ouviram, os emocionaram e que levarão para toda vida como prova do que é possível realizar quando as pessoas se juntam para fazer o bem.

Os resultados podem ser contemplados nos olhos de pais como Verônica, mãe da Camila Vitória Alves, um bebê de apenas 4 meses, que virou o xodó de toda equipe, em parte pela simpatia de ir no colo de todos sem reclamar e, em parte, pois uma das pediatras da missão insistiu que a pequena, e bela, Camila era uma cópia fidedigna dela mesma quando bebê.

Na noite do dia em que sua filha havia recebido a cirurgia reparadora, encontrei sua mãe debruçada sobre o berço na enfermaria, sussurrando para ela mesma: “ela está linda. Ela ficou perfeita, perfeita, não acredito”. Começamos a conversar sobre sua filha e sobre seu sofrimento quando descobriu que teria uma filha fissurada e não sabia como seria possível tratá-la ou se até era possível.

Depois que ela terminou de me contar seu sofrimento, disse apenas: “pois é, e veja só o que foi possível mudar para o futuro da sua filha com uma cirurgia de apenas 19 minutos. Sim, eu vi a cirurgia dela e durou 19 minutos do primeiro corte ao último ponto, acredita?”.

Ela olhou nos meus olhos, sorriu e começou a chorar e a dizer obrigado. Mas obrigado quem deveria dizer somos nós, os voluntários, por termos a experiência de passar por momentos como esse e por termos ajudado, por menor que seja a ajuda, a 114 famílias terem momentos como esses na semana passada.